A nova era da gestão turística exige profissionalização e visão estratégica
Empreendimentos que estruturam processos, equipes e experiência do visitante ampliam competitividade e rentabilidade no setor
Reprodução Com o aumento do fluxo internacional, a ampliação das receitas e a retomada da competitividade do país no cenário global, o setor passa a demandar empresas mais preparadas, lideranças mais técnicas e operações capazes de transformar procura em resultado econômico consistente.
O Ministério do Turismo informou que os gastos de turistas estrangeiros no Brasil alcançaram R$ 16 bilhões no primeiro trimestre do ano, alta de 12% em relação aos R$ 14,2 bilhões registrados no mesmo período de 2025. O dado, baseado em números do Banco Central, reforça o peso econômico da atividade e amplia a pressão sobre empreendimentos turísticos para que atuem com maior organização interna, previsibilidade operacional e capacidade de entrega.
A discussão não envolve apenas grandes redes hoteleiras ou operadores nacionais. O Plano Brasis, estratégia internacional de marketing turístico da Embratur para o período de 2025 a 2027, destaca que o Brasil possui 1,78 milhão de empresas no setor de turismo, das quais 97,4% são pequenos negócios. Isso significa que a competitividade do país depende, em grande parte, da qualificação de empresas locais, atrativos regionais, prestadores de serviço, agências, hospedagens e operadores que lidam diretamente com o visitante.
Nesse contexto, a profissionalização deixa de ser uma etapa opcional e passa a ser condição de sobrevivência. Negócios turísticos que não controlam rotinas, custos, manutenção, atendimento, comunicação, equipe e indicadores ficam mais vulneráveis a falhas operacionais, avaliações negativas e perda de rentabilidade. O visitante, por sua vez, está cada vez mais informado, compara experiências antes de comprar e compartilha sua percepção de forma imediata.
Para Fernando Aivi Peres, empresário, gestor e especialista em operações de turismo, hospitalidade e produção audiovisual estratégica, o momento exige uma mudança de mentalidade. “O turismo precisa ser administrado como negócio, com método e acompanhamento diário. Não basta abrir as portas e esperar que a procura resolva tudo. Cada setor precisa saber o que fazer, cada processo precisa ter responsável e cada decisão precisa considerar impacto na experiência e no resultado financeiro”, afirma.
Para Fernando, a rentabilidade no turismo não nasce apenas do aumento de vendas. Ela depende da capacidade de reduzir perdas, evitar improvisos, aproveitar melhor os recursos e proteger a reputação do negócio. “Quando uma empresa turística organiza seus processos, ela melhora o atendimento, diminui desperdícios, evita retrabalho e consegue planejar melhor. Isso tem efeito direto no caixa e na percepção do cliente”, afirma.
A profissionalização também se conecta à comunicação. Antes de assumir funções de gestão ampla, Fernando estruturou sua carreira no audiovisual turístico, produzindo fotos, vídeos e conteúdos digitais para atrativos, hotéis, restaurantes e empreendimentos locais. Em 2019, formalizou a Peres Produtora LTDA, empresa voltada à fotografia, produção de vídeos e criação de conteúdo digital, com atuação nos segmentos de turismo, imobiliário e eventos.
No setor turístico contemporâneo, conteúdo visual não serve apenas para promoção. Ele ajuda a esclarecer a experiência, orientar expectativas e qualificar a decisão de compra. Ainda no Grupo Bonitur, Fernando participou da criação de vídeos curtos sobre passeios, com informações práticas como duração, faixa etária, horários, localização e características das atividades. Segundo sua autobiografia, esses materiais passaram a ser utilizados no atendimento a clientes que tinham dúvidas sobre os atrativos.
Essa relação entre comunicação e gestão é cada vez mais relevante. Quando a empresa informa bem, reduz ruídos, evita frustrações e melhora a conversão comercial. Quando comunica mal, cria expectativa incompatível com a entrega e aumenta o risco de insatisfação. Para empreendimentos turísticos, a imagem precisa estar alinhada à operação real.
Fernando avalia que a profissionalização deve começar por um diagnóstico honesto da operação. “Antes de pensar em crescer, a empresa precisa saber onde estão os gargalos. Pode ser na comunicação interna, no atendimento, na manutenção, no financeiro, no treinamento ou na estrutura física. Quando o problema é identificado com clareza, a solução deixa de ser improvisada”, afirma.
A nova era da gestão turística, portanto, não se resume à adoção de tecnologias ou campanhas de divulgação. Ela envolve maturidade empresarial, leitura de mercado, organização de pessoas, controle de qualidade e capacidade de adaptação. O turismo continua sendo uma atividade de experiência, mas essa experiência precisa ser sustentada por processos invisíveis ao visitante e fundamentais para o resultado do negócio.
Entrevista com Fernando Aivi Peres
O que mudou na forma de administrar empreendimentos turísticos?
Mudou a exigência. Hoje, o visitante chega mais informado e com expectativa maior. Isso obriga as empresas a cuidarem melhor da operação. Um empreendimento turístico precisa ter rotina, padrão, liderança, controle e capacidade de resolver problemas com rapidez.
Qual área costuma ser mais negligenciada pelos negócios turísticos?
Muitas vezes é a manutenção. Quando a manutenção é deixada para depois, o problema aparece no momento errado, afeta o visitante, gera custo maior e sobrecarrega a equipe. Manutenção preventiva é uma forma de proteger a operação e o resultado financeiro.
Como a comunicação interna influencia a experiência do visitante?
Influencia muito. Se um setor não conversa com o outro, o turista sente a desorganização. A recepção precisa saber o que acontece na operação, a equipe de transporte precisa estar alinhada, a manutenção precisa ser acionada rápido e a liderança precisa acompanhar tudo de forma clara.
A tecnologia resolve os principais problemas da gestão turística?
Ela ajuda, mas não substitui organização. Tecnologia sem processo vira mais uma ferramenta mal utilizada. Primeiro a empresa precisa entender o próprio fluxo de trabalho. Depois, escolhe recursos que realmente ajudem a ganhar tempo, reduzir falhas e melhorar a comunicação.
Qual é o papel da liderança em uma operação turística complexa?
A liderança precisa criar direção. Não é apenas mandar. É acompanhar, orientar, ouvir, corrigir e dar condições para a equipe trabalhar melhor. Quando a equipe entende o objetivo e sabe como agir, a operação fica mais leve e mais eficiente.
Como a profissionalização impacta a rentabilidade?
Impacta diretamente. Processos organizados reduzem desperdício, evitam retrabalho, melhoram a qualidade do atendimento e aumentam a confiança do visitante. Isso fortalece a reputação e ajuda a empresa a crescer com mais estabilidade.
A profissionalização da gestão turística tornou-se um dos principais desafios do Brasil. O crescimento das receitas internacionais e a estratégia de reposicionamento do país no mercado global criam oportunidades relevantes, mas também elevam o nível de cobrança sobre empresas e destinos.



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