Logística reversa de eletrônicos ganha relevância diante do aumento do descarte tecnológico
Especialistas defendem que o avanço da reciclagem depende de estrutura técnica, rastreabilidade e integração entre indústria, comércio e operadores ambientais
Reprodução O avanço do consumo de equipamentos eletrônicos, a rápida substituição de aparelhos e o descarte inadequado de produtos tecnológicos ampliaram a pressão sobre a logística reversa no Brasil. Em 2026, o tema ganhou ainda mais relevância com a manutenção das metas nacionais para produtos eletroeletrônicos e seus componentes de uso doméstico, previstas dentro da Política Nacional de Resíduos Sólidos e regulamentadas pelo Decreto nº 10.240/2020.
A preocupação não é apenas ambiental. Segundo o Global E-waste Monitor 2024, o mundo gerou 62 milhões de toneladas de resíduos eletrônicos em 2022, volume 82% superior ao registrado em 2010. A projeção é que esse total chegue a 82 milhões de toneladas até 2030. Apesar do potencial de reaproveitamento, apenas 22,3% desse material teve coleta e reciclagem documentadas de forma adequada em 2022.
No Brasil, a logística reversa de eletrônicos envolve fabricantes, importadores, distribuidores, comerciantes, consumidores e operadores responsáveis pela coleta, triagem, transporte, processamento e destinação final ambientalmente correta. A complexidade dessa cadeia exige mais do que pontos de entrega. Exige estrutura técnica capaz de comprovar o caminho do resíduo e garantir que materiais com potencial de recuperação não sejam perdidos em processos informais.
Para Jackson Douglas da Silva Polidoro, empresário, fundador e CEO da Precious Group, o crescimento do descarte tecnológico torna urgente a profissionalização da reciclagem industrial. “O eletrônico descartado não é apenas lixo. Ele pode conter metais e componentes de valor, mas também exige cuidado técnico, porque envolve riscos ambientais e necessidade de destinação correta”, afirma.
A leitura de Jackson parte da rotina de quem acompanha o resíduo depois que ele sai do ponto de descarte. Para ele, o maior desafio da logística reversa não está apenas em recolher equipamentos, mas em manter o controle sobre cada etapa posterior: triagem, transporte, classificação, processamento e destinação.
“A cadeia precisa conversar. Se o consumidor descarta, o comércio recebe, a indústria responde e o operador ambiental processa, todos precisam estar conectados por informação e responsabilidade. Sem rastreabilidade, o sistema perde controle”, explica.
A Precious Group atua em segmentos ligados à reciclagem industrial, processamento de resíduos eletrônicos, recuperação de metais, logística reversa e exportação de materiais recicláveis de alto valor agregado. A empresa estruturou processos de controle de lotes, classificação de materiais, auditoria técnica e conformidade ambiental, pontos considerados essenciais para dar segurança a operações envolvendo resíduos industriais e eletrônicos.
“O Brasil precisa olhar para os resíduos eletrônicos como parte da economia circular. Isso significa criar processos que recuperem valor, reduzam desperdício e deem segurança para empresas, consumidores e órgãos ambientais”, afirma.
A discussão também envolve educação ambiental. Mesmo com o avanço da legislação, grande parte da população ainda desconhece como descartar equipamentos fora de uso. Celulares, computadores, eletrodomésticos, pilhas e acessórios muitas vezes permanecem guardados em casa ou são descartados junto ao lixo comum, dificultando o reaproveitamento e aumentando riscos de contaminação.
Entrevista
Como o senhor avalia o momento atual da logística reversa de eletrônicos no Brasil?
Vejo um momento de amadurecimento. A legislação já criou uma base importante, mas o setor precisa avançar em execução, controle e integração. Não basta recolher o eletrônico. É necessário saber para onde ele vai, como será processado e qual destinação receberá.
Qual é o maior desafio para ampliar a reciclagem desses materiais?
O maior desafio é estruturar uma cadeia confiável. Muitos resíduos eletrônicos têm valor, mas também exigem técnica. Se não houver classificação correta, rastreabilidade e operadores preparados, parte desse material se perde ou acaba em fluxos inadequados.
A rastreabilidade pode mudar a forma como o mercado trata o descarte tecnológico?
Pode mudar completamente. Quando existe controle de lote, documentação e auditoria, o resíduo deixa de ser um problema invisível. Ele passa a fazer parte de uma cadeia produtiva organizada, com responsabilidade e possibilidade real de reaproveitamento.
O Brasil tem potencial para crescer nesse setor?
Tem muito potencial. O país gera volume, tem mercado consumidor grande e possui empresas capazes de desenvolver soluções técnicas. O que precisa crescer é a profissionalização. A logística reversa de eletrônicos não pode depender de improviso; precisa de governança.
Com o aumento do descarte tecnológico e a pressão por cadeias mais sustentáveis, a logística reversa de eletrônicos tende a ocupar um espaço cada vez mais estratégico na indústria brasileira. O desafio dos próximos anos será transformar legislação, consumo e responsabilidade ambiental em uma operação integrada, capaz de recuperar materiais, reduzir riscos e fortalecer a economia circular.



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