Dor crônica se consolida como um dos principais desafios da saúde musculoesquelética moderna
Especialistas defendem abordagens integradas que unem avaliação funcional, movimento terapêutico e educação do paciente
Reprodução A dor crônica deixou de ser tratada como um evento “isolado” e passou a ser reconhecida como um desafio estruturante para sistemas de saúde, empresas e famílias. A própria definição adotada por entidades de referência reforça o marco clínico: dor crônica é aquela que persiste ou recorre por mais de 3 meses, frequentemente exigindo avaliação e reabilitação específicas.
Dentro desse cenário, a saúde musculoesquelética ganhou ainda mais centralidade. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que as condições musculoesqueléticas são a principal causa de incapacidade em todo o mundo, e destaca que a dor lombar é o maior componente dessa carga global, com centenas de milhões de casos prevalentes.
Os números mais recentes reforçam por que o tema entrou definitivamente no radar. Em comunicado de 2023, a OMS estimou que, em 2020, cerca de 619 milhões de pessoas vivenciaram dor lombar, aproximadamente 1 em 13 pessoas, com projeção de crescimento expressivo até 2050. E, quando a dor se torna persistente, os impactos não ficam restritos ao corpo: perda de produtividade, piora do sono, redução de mobilidade e risco aumentado de sofrimento emocional entram no mesmo pacote, elevando custos diretos e indiretos para o paciente e para o sistema.
Nos Estados Unidos, o retrato estatístico ajuda a dimensionar a prevalência em um país com grande volume de dados populacionais. Um Data Brief do CDC, com base no NHIS 2023, identificou que 24,3% dos adultos relataram dor crônica e 8,5% relataram dor crônica de alto impacto, aquela que frequentemente limita atividades de vida ou trabalho, nos três meses anteriores à pesquisa.
Apesar da magnitude, especialistas têm defendido uma virada prática: menos foco em “apagar incêndio” e mais foco em estratégias integradas, mensuráveis e sustentáveis. Em 2023, a OMS publicou suas primeiras diretrizes para manejo não cirúrgico da dor lombar crônica primária em adultos, reforçando uma abordagem centrada em intervenções não invasivas e em organização do cuidado ao longo do tempo. Em paralelo, publicações científicas recentes seguem analisando a carga global da dor lombar a partir de bases como o Global Burden of Disease, mantendo o tema no topo das agendas de saúde pública e do debate sobre incapacidade.
Luis Ricardo de Souza Gandolfi, fisioterapeuta com 21 anos de experiência clínica em reabilitação musculoesquelética, com ênfase em quadros de coluna com indicação cirúrgica, e atuação direta em mais de 10 mil pacientes ao longo da carreira. Luis também exerce direção clínica e responsabilidade técnica em unidades especializadas em coluna e lidera equipe clínica, além de ter atuado como diretor regional de uma associação voltada à coluna vertebral.
“Dor crônica não é só intensidade de dor. É impacto funcional. Quando o paciente deixa de caminhar, trabalhar, dormir bem ou confiar no próprio movimento, a condição vira um problema de vida, não apenas de coluna”, explica. Para ele, o erro mais comum é tratar a dor crônica como uma sequência de tentativas desconexas: um pouco de repouso, uma intervenção pontual, um retorno precipitado à mesma rotina, e depois frustração. “Sem critérios, sem progressão e sem reavaliação, a gente fica girando em torno do sintoma.”
Luis aponta três pilares que vêm se consolidando como base do cuidado moderno em dor musculoesquelética persistente: avaliação funcional objetiva, movimento terapêutico com progressão e educação do paciente. A avaliação funcional, segundo ele, organiza a tomada de decisão: identifica limitações reais, mede evolução e orienta ajustes. O movimento terapêutico tira o paciente da armadilha do medo e da evitação, reconstruindo capacidade com segurança, passo a passo. Já a educação reduz ruído: explica o que é esperado, o que é sinal de alerta, e como o paciente participa do processo de recuperação, em vez de apenas “esperar passar”.
Essa lógica também conversa com o conceito de “dor crônica de alto impacto”, discutido por entidades técnicas: quando a dor compromete rotina e funcionalidade, a resposta precisa ser diferente, frequentemente exigindo uma abordagem mais interdisciplinar e um plano mais estruturado. “O objetivo não é provar que alguém ‘não tem nada’. O objetivo é devolver função. E função melhora com método, não com improviso”, resume Luis.
Entrevista com o especialista (Luis Ricardo de Souza Gandolfi)
1) Na prática, o que mais cronifica a dor musculoesquelética?
“O que mais cronifica é a combinação de medo de movimento com ausência de estratégia. A pessoa começa a evitar atividades, perde força, perde tolerância a carga e entra num ciclo de piora. Quando o cuidado não tem progressão e reavaliação, fica fácil a dor ‘virar rotina’.”
2) Por que a avaliação funcional é tão importante em dor crônica?
“Porque ela transforma o tratamento em algo mensurável. Em vez de depender só do ‘quanto dói hoje’, você mede capacidade: mobilidade, força, controle, resistência, tolerância a posições e movimentos. Isso orienta o plano e mostra evolução real.”
3) O que significa “movimento terapêutico” para um paciente leigo?
“Significa movimento com propósito e dose certa. Não é ‘fazer qualquer exercício’. É escolher o que o corpo tolera, progredir gradualmente e reconquistar confiança para voltar às atividades do dia a dia.”
4) Qual o papel da educação do paciente?
“Educação reduz ansiedade e melhora adesão. O paciente entende o que é esperado, aprende a reconhecer sinais importantes e para de depender de soluções pontuais. Em dor crônica, aderência e consistência fazem diferença.”
5) Qual recado você daria para quem vive com dor há meses?
“Não normalize a limitação. Dor crônica pode ser tratada, mas precisa de plano estruturado. Procure avaliação, defina metas funcionais e exija um processo com progressão e reavaliação. O foco é recuperar vida, não apenas ‘sentir menos dor’.”
O consenso técnico que se fortalece é claro: dor crônica musculoesquelética é um dos grandes desafios contemporâneos não apenas pela prevalência, mas pelo impacto em funcionalidade e qualidade de vida.



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