Tecnologias de baixo custo desafiam modelos tradicionais de pavimentação no Brasil
Novas abordagens em solos e gestão de obras apontam caminhos mais eficientes e sustentáveis para municípios
Reprodução O debate sobre pavimentação voltou a ganhar força em municípios de médio e pequeno porte, especialmente em regiões rurais onde a realidade das estradas vicinais impõe limites financeiros e operacionais. A pressão é conhecida: há demanda por trafegabilidade, redução de poeira e lama, manutenção mais previsível e melhoria do acesso a serviços essenciais, mas nem sempre existe orçamento para modelos tradicionais de pavimentação.
O desafio é ampliado pela escala. No Brasil, as estradas vicinais somam aproximadamente 2,2 milhões de quilômetros, e mais de 80% apresentam condições precárias de trafegabilidade, justamente em vias ligadas ao escoamento de cerca de 1,4 bilhão de toneladas de produtos agrícolas por ano.
Nesse cenário, o crescimento do interesse por soluções de baixo custo e alta aplicabilidade tem mudado a forma como prefeitos, secretarias de obras e gestores de infraestrutura avaliam alternativas. Em vez de pensar apenas em “asfalto ou nada”, algumas administrações passaram a discutir tecnologias de estabilização de solo, controle de poeira e metodologias de execução que reduzam etapas, tempo de obra e dependência de estruturas complexas.
Uma das referências consultadas pela reportagem foi o empresário e especialista em infraestrutura sustentável Yan Chiozzo Pereira, fundador da TopSolo. A empresa foi criada com foco em soluções técnicas para estradas não pavimentadas, e, desde o início, Yan se envolveu diretamente no desenvolvimento e validação das tecnologias aplicadas em campo.
“Por muito tempo, a discussão ficou presa em um modelo único. Mas estrada rural precisa de solução compatível com solo, clima, orçamento e prazo. Quando a engenharia se aproxima do campo e do uso real, aparecem alternativas mais eficientes”, afirma.
Entrevista com o especialista: Yan Chiozzo Pereira
1) Por que 2025 marcou uma virada nesse debate?
Porque a conta não fecha do jeito antigo. A escala das estradas vicinais é enorme e o município precisa de solução que caiba no orçamento e funcione no uso real. Quando a estrada falha, não falha só o transporte: falha o acesso.
2) Tecnologias de estabilização “substituem” o asfalto?
Elas não são uma “resposta única”. Em muitos casos, são alternativas técnicas que resolvem o problema com eficiência e velocidade. O ponto é entender o objetivo da via, o solo e o impacto esperado.
3) O que você considera erro comum em projetos municipais?
Projetar como se todo trecho tivesse o mesmo solo, o mesmo tráfego e a mesma urgência. Estrada vicinal é viva: muda com chuva, com uso e com sazonalidade. A solução precisa considerar isso.
4) Onde entra a sustentabilidade nessa discussão?
Sustentabilidade é reduzir desperdício: obra que dura pouco vira custo recorrente, vira poeira, vira lama, vira emissão, vira perda de produtividade. Quando você melhora a via com eficiência, você reduz o ciclo de manutenção e os impactos associados.
5) Como medir se uma solução de baixo custo realmente funciona?
Com validação em campo, metodologia, acompanhamento e ajuste. Não existe “produto mágico”. Existe engenharia aplicada com responsabilidade técnica.
6) Qual é o ponto central para municípios que precisam agir rápido?
Priorizar trechos críticos, adotar soluções com execução rápida e planejamento de manutenção inteligente. A estrada não pode esperar o orçamento ideal, ela precisa funcionar.
A discussão indica uma mudança de paradigma: municípios e gestores passaram a tratar tecnologias de baixo custo não como solução improvisada, mas como engenharia aplicável quando há validação, método e gestão de obra. Com uma malha vicinal extensa e necessidades sociais urgentes, soluções de estabilização e controle de poeira tendem a ganhar ainda mais espaço, especialmente onde infraestrutura significa, na prática, acesso, saúde e continuidade econômica.



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