Falta de planejamento sucessório amplia disputas familiares e perdas patrimoniais
Ausência de organização jurídica prévia tem gerado impactos financeiros e emocionais significativos em famílias brasileiras
Reprodução O aumento do patrimônio familiar acumulado nas últimas décadas, aliado ao envelhecimento populacional e à ausência de cultura preventiva no Brasil, tem ampliado os conflitos sucessórios no país. Especialistas voltaram a alertar para os impactos econômicos e emocionais causados pela falta de planejamento sucessório, especialmente em famílias que possuem empresas familiares, imóveis, investimentos ou dependentes vulneráveis.
Dados divulgados pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostram que o Judiciário brasileiro segue enfrentando alto volume de ações relacionadas a sucessões, inventários e disputas patrimoniais. O relatório Justiça em Números 2025 apontou que o Poder Judiciário brasileiro encerrou 2024 com mais de 83 milhões de processos em tramitação, incluindo crescimento contínuo de demandas cíveis e familiares ligadas à judicialização de conflitos patrimoniais.
O problema não se limita aos tribunais. Segundo levantamento do Colégio Notarial do Brasil, o número de inventários realizados em cartórios brasileiros tem aumentado nos últimos anos, refletindo uma maior procura por soluções extrajudiciais e consensuais, mas também evidenciando a ausência de organização patrimonial prévia em grande parte das famílias.
Na avaliação da advogada Cledinéia da Silva Matias, especializada em Direito de Família e Sucessões, o principal erro ainda é a percepção de que planejamento sucessório é uma pauta exclusiva de grandes empresários ou famílias extremamente ricas.
“Na prática, os conflitos mais difíceis normalmente surgem justamente em famílias que nunca imaginaram precisar estruturar regras patrimoniais. A ausência de diálogo e organização prévia acaba transformando situações emocionalmente delicadas em disputas longas, desgastantes e financeiramente destrutivas”, afirma.
A preocupação se torna ainda maior em casos envolvendo pessoas com deficiência. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui milhões de pessoas com algum grau de deficiência, muitas delas dependentes financeiramente de familiares responsáveis. Nessas situações, a ausência de planejamento sucessório pode comprometer diretamente a continuidade de tratamentos, moradia e estabilidade financeira após a perda dos responsáveis legais.
Para Cledinéia, famílias com dependentes vulneráveis exigem um olhar ainda mais estratégico.
“Quando existe um filho com deficiência, o planejamento sucessório deixa de ser apenas uma questão patrimonial. Ele passa a envolver proteção de longo prazo, continuidade de cuidados, definição de responsáveis, preservação de recursos financeiros e prevenção de conflitos que possam comprometer a qualidade de vida daquela pessoa”, explica.
Entrevista — Cledinéia da Silva Matias
Quais são os erros mais comuns observados em famílias sem planejamento sucessório?
“O principal erro é acreditar que a sucessão pode ser resolvida apenas depois da perda de um familiar. Muitas vezes não existe organização documental, definição clara sobre administração patrimonial ou preparação emocional da família para lidar com decisões complexas.”
Planejamento sucessório é apenas para famílias de alto patrimônio?
“Não. Qualquer família que possua patrimônio, dependentes ou responsabilidades futuras pode se beneficiar de organização sucessória. Em muitos casos, o objetivo principal não é reduzir impostos, mas evitar conflitos e proteger pessoas vulneráveis.”
Por que os conflitos familiares se tornam tão desgastantes?
“Porque eles misturam patrimônio, história emocional, expectativas e relações pessoais. Quando não existe planejamento, o processo acaba acontecendo em um ambiente de fragilidade emocional, o que aumenta a dificuldade de negociação.”
Como a mediação pode ajudar nesses casos?
“A mediação cria espaço para diálogo estruturado. Nem todo conflito precisa terminar em litígio prolongado. Em muitos casos, uma solução consensual preserva relações familiares e reduz perdas financeiras e emocionais.”
A tendência, segundo especialistas, é que o planejamento sucessório deixe de ser tratado apenas como ferramenta jurídica e passe a ocupar posição estratégica dentro da organização familiar. Em um cenário de famílias mais complexas, patrimônio pulverizado e relações internacionais cada vez mais frequentes, a prevenção vem sendo apontada como o caminho mais eficiente para reduzir disputas e preservar estabilidade patrimonial ao longo das gerações.



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