Economia circular deixa o discurso e entra na engenharia
Empresas investem em inovação para recuperar materiais complexos e reinseri-los na cadeia produtiva
Reprodução A economia circular tem sido tema recorrente em relatórios corporativos e fóruns globais, mas o avanço real do conceito depende de algo mais concreto: engenharia aplicada. Segundo dados da OCDE, a produção mundial de plásticos ultrapassou 460 milhões de toneladas anuais, enquanto a taxa global de reciclagem permanece abaixo de 10%. O desafio, portanto, não está na intenção, mas na execução.
No Brasil, o cenário começa a mudar à medida que empresas do setor industrial investem em padronização de processos, controle técnico e desenvolvimento de soluções para resíduos de maior complexidade. A discussão deixou de ser apenas ambiental e passou a ser produtiva.
Um dos pontos centrais dessa transformação está na recuperação de materiais multicamadas, embalagens compostas por diferentes polímeros combinados para oferecer resistência, barreira e desempenho. Historicamente descartados por sua dificuldade técnica de reaproveitamento, esses materiais passaram a ser alvo de estudos e aplicações práticas dentro de operações industriais mais estruturadas.
Para Ciro José Fedalto, que possui grande conhecimento em reciclagem de plásticos e desenvolvimento de processos industriais, o amadurecimento do setor depende da capacidade de tratar o reciclado com o mesmo rigor aplicado à matéria-prima virgem.
“A circularidade só funciona quando existe controle. Se o material reciclado não tiver previsibilidade de comportamento, ele não se sustenta na indústria. Engenharia de processo é o que transforma intenção em viabilidade econômica”, afirma.
Entrevista
O que diferencia a economia circular de hoje daquela discutida há dez anos?
“Hoje existe cobrança por resultado. Antes falava-se muito em reciclar. Agora fala-se em desempenho do reciclado. Se o material não atender padrão técnico, ele simplesmente não entra na linha do cliente.”
Materiais complexos ainda são um limite?
“São um limite para quem não domina processo. Quando há conhecimento técnico sobre composição e comportamento térmico, é possível ajustar formulações e aplicações de forma viável.”
O que precisa evoluir no Brasil?
“Precisamos integrar cadeia. Design, coleta, triagem e indústria precisam conversar mais. Circularidade não é responsabilidade isolada do reciclador.”
O avanço da economia circular no Brasil dependerá menos de metas declaradas e mais de capacidade técnica instalada. A engenharia aplicada à reciclagem surge como o elo que conecta sustentabilidade e competitividade industrial. Quando resíduos complexos passam a ser tratados com método e controle, o conceito deixa o campo teórico e entra definitivamente no chão de fábrica.



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